
Há muito, muito tempo atrás…bom, para sermos mais precisos, no tempo em que todos os animais falavam e não como agora em que só os burros o fazem, existia pelas bandas da Pateira um personagem famoso que poderíamos designar, sem temor a exagerar, um ícone da cultura popular, se bem que esta mania que alguns artistas têm de representar a figura humana – daí o rótulo de figurativos – tenha o seu quê de controverso, não vá a alma fugir para a tela ou o Supremo Ser pensar que alguém lhe quer roubar a imortalidade
Não encontro melhor maneira de vos retratar tal figura – por ventura é em tais alhadas que se descobre a careca ao presumido escritor – do que filmá-lo em plena acção, pois já se sabe que a fotografia apenas capta o instante, o que nos dias televisivos de hoje é pouca, muito pouca coisa, dir-se-ia tralha do passado. Então é assim:
A acção decorre no “set” – ou cenário em bom Português – do adro da Igreja de Fermentelos, num Domingo qualquer, com um sol radioso (poupa-se na iluminação) e com os devotos a saírem da respectiva Missa (poupa-se aqui na figuração e contenta-se o Padre que vê o recinto cheio como nunca); as conversas parecem animadas mas imperceptíveis (poupa-se, sem diálogos, no salário do guionista) e, ao longe, na rua dita de principal, surge uma figura masculina toda de preto, chapéu incluído, a pedalar garbosamente – seja lá o que isso fôr – na sua pasteleira – eufemismo negativo para bicicleta – toda pintada de preto e alguma ferrugem à mistura, que isto os anos corroem, por assim dizer.
É o Amigo João a quem também os anos não poupam, veja-se a cara cheia de pregas, outras que não aquelas que enfeitam os vestidos e também as calças – que as há para todos – que se passeiam no já referido adro. Voltam-se as cabeças e, figurantes em uníssono, dizem alto e bom som:
– Bom dia, Amigo João!
E responde assim o nosso bicipédico, com voz de Plácido Domingo:
– Fo_ _ – se lá o Amigo. Conhecido e de há pouco!
A palavra que me ocorre, sentado convosco nesta imaginária plateia, é despautério, porque como já se sabe, tenho paixão – ou será fetiche? – por estes desarranjos da língua pátria. Então é assim que se responde ao carinho do povo, Amigo João?
Pois esta insistência no Fo_ _ -se lá o Amigo! não é aquilo que vos parece, mas antes o embrião do que poderíamos designar de nova Ética da Amizade, entendida pela relação da Moral que existe em nós mesmos com a Felicidade dos outros.
Sem necessidade de recorrermos ao pensamento do grande teórico da racionalidade da Ética, o senhor Kant, percebe-se facilmente que por detrás da primeira parte desta famosa frase do Amigo João está o correcto entendimento da virtude da saudação com que o povo o brinda e na segunda está, é bom de ver, o cuidado do Amigo para com o bem estar moral dos outros, aquilo a que os verdadeiros latinos chamavam de “salus moral”.
Não vos restem dúvidas que nestas paragens da Pateira ocorrem, de quando em vez, grandes feitos civilizacionais. Ou como diria Bocage ou um outro que tal: de fraca toca, por vezes, sai bom coelho.




